ARÍSTIDES SOUSA MENDES E A RUÍNA IMINENTE DO SOLAR DO PASSAL ARÍSTIDES SOUSA MENDES E A RUÍNA IMINENTE DO SOLAR DO PASSAL
A bem com a sua consciência e com D´us, durante a última grande guerra mundial, Arístides de Sousa Mendes desobedeceu frontalmente a Salazar, então 1.º ministro português, emitindo em Bordéus onde então era cônsul (1940), vistos de entrada e de passagem por Portugal, a caminho sobretudo da América e Inglaterra, a cerca de trinta mil refugiados, dos quais dez mil eram judeus, salvando-os das câmaras de gás nazis.
Imagina-se o desespero de toda aquela multidão em fuga, quando sabemos que os exércitos de Hitler se dirigiam apressadamente para Bordéus, então, temporariamente capital de França.
Expulso por Salazar do exercício de todas as suas funções consulares e da administração portuguesa, sendo-lhe de igual modo proibido ilegalmente o direito à reforma, interditado de praticar advocacia e extorquida a carta de condução internacional, Arístides com a esposa e os catorze filhos, foram lançados na miséria, vendo-se obrigado a recorrer à sopa da mitra, e a assistir à dispersão dos filhos por razões de sobrevivência por vários países do mundo que os acolheram. Morreu a 3 de Abril de 1954 no Hospital da Ordem Terceira em Lisboa, sendo sepultado, envolto num simples burel, hábito da ordem franciscana. Confessou pouco antes da morte, partir em paz consigo próprio.
Cristão e monárquico, Aristides Sousa Mendes, não olhou a credos religiosos ou políticos, nem à segurança e bem estar de si e da sua família, para em consciência consigo e bem estar com D´us, como então escreveu, desobedecer às ordens do então primeiro ministro português, o criminoso Salazar.
O problema não é novo; o estado de conservação do solar de Aristides Sousa Mendes, em Cabanas de Viriato, concelho de Carregal do Sal, no distrito de Viseu, em ruína eminente, classificado de monumento nacional, mais não traduz do que a indiferença, o desleixo ou o desnorte da política de cultura ao longo de anos no nosso país, com excepção de alguns períodos, vindo-se a assistir à destruição do imóvel ao ponto vergonhoso que as imagens revelam.
Com uma indiferença gritante, digamos “inconscientemente” provocatória, “um deixa andar” argumentando-se talvez que a responsabilidade directa não é neste caso do Estado, assiste-se à derrocada daquela memória evocativa, a casa do Passal, onde Aristides Sousa Mendes residiu sempre que se encontrava no nosso país e onde viveu os últimos anos da sua vida.
Diga-se que este Monumento Nacional, não o é por razões arquitectónicas mas sim por mérito absoluto por razões simbólicas, votado e proposto por unanimidade de todos os membros do Ex-Conselho Consultivo do do Ex- IPPAR. Não basta porém classificar o património; ainda que tal seja importante, são precisas políticas consistentes de salvaguarda e valorização do mesmo.
Sendo Aristides de Sousa Mendes, um herói português do séc. XX, figura imortal, símbolo da paz para toda a humanidade, poderá o estado português ser desresponsabilizado pela ruína em que se encontra o edifício?
É urgente que a casa do Passal seja restaurada e transformada no “Monumento à Paz no Mundo”, como foi previsto em 2001, por uma comissão presidida pela Dr.ª Maria de Jesus Barroso, e para o qual chegou a ser elaborado um projecto em fase de estudo prévio, no âmbito da extinta Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.
O vazio do seu espaço interior deve ser percorrido pelos visitantes em respeitoso silêncio e meditação, quer à memória de Aristides de Sousa Mendes, o “JUSTO DE BORDÉUS” como é conhecido em França e, o “JUSTO ENTRE AS NAÇÕES” cognome dado por Israel, quer por todos os que tombaram vítimas do holocausto.
Mas seria importante também, como complemento do rigoroso restauro deste edifício com elevado valor simbólico, e em plena articulação e integração com ele, fosse projectado e construído ao lado um outro, com alto significado arquitectónico, este através de concurso público para o qual fossem convidados arquitectos de vanguarda e credibilidade internacional, cujo programa contivesse espaços para reunião, estudo, biblioteca, anfiteatro, exposições, e eventualmente alguns quartos de suporte a residentes temporários. Estou convicto de que a Ordem dos Arquitectos Portugueses, a nível nacional, se consultada e pedido o seu apoio, dará o melhor da sua colaboração neste processo.
Para já, é imperativo que se tomem medidas que parem o processo de ruína iminente da casa do Passal.
A memória de Aristides de Sousa Mendes tem escala planetária e é com tal dimensão de importância que deve ser considerado! Por isso, e sendo a figura que mais vidas salvou do holocausto, o estado português tem responsabilidades acrescidas em tratar as memórias de Arístides com a elevada importância que lhe é devida. Estou convicto que o actual Governo e o Ministro da Cultura, tudo farão para que este assunto seja definitivamente resolvido.
Será que a nossa democracia pretende continuar associada ao rosto vergonhoso da casa do Passal em ruínas?
José da Conceição Afonso
(Arqt.º)
Portugal
(20.11.2008)
José da Conceição Afonso